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31/07/2009 - 10:13

Exclusivo/ Dois anos de batalha para adotar duas filhas

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“As crianças chegaram! Já estão em casa”, contou-me no começo desta semana o amigo Gilberto Carvalho, feliz da vida porque finalmente tinha conseguido concretizar o grande sonho dele e de sua mulher, a Flor: adotar uma criança.

Uma não, foram logo duas, de 6 e 4 anos. Depois de dois anos de batalha nas Varas da Família, enfrentando toda espécie de burocracias e dificuldades, o casal estava comemorando naquela noite a chegada das crianças.

Chefe do Gabinete Pessoal do presidente Lula desde o primeiro dia de governo, o baixinho Gil, que quase foi padre e já era pai de três filhos adultos do seu primeiro casamento, é uma dessas figuras raras que sempre encontram tempo para ajudar os outros, mesmo sendo o primeiro funcionário a chegar e o último a sair do Palácio do Planalto todos os dias.

Minha mulher e eu acompanhamos a luta deles para adotar uma criança desde o começo, porque era sempre este o assunto quando encontrávamos o casal Gil e Flor, nossos velhos amigos. Por isso, também ficamos muito contentes com o final feliz desta história, que pode servir de estímulo e inspiração a outros casais para fazer o mesmo.

Para contar a história toda como foi, nada melhor do que o próprio Gilberto Carvalho, que gentilmente me enviou o comovente relato publicado abaixo:

“Então, Ricardo, vamos lá:

Como você sabe, tenho três filhos do primeiro casamento _ a mais velha, Myriam, tem 29 anos, o Samuel, 26, e o Gabriel, 22. Sempre digo que os filhos foram o que deu mais certo na minha vida, uma relação muito intensa, que tem sido fonte de alegria e energia para minha vida.

Mesmo com a separação, a relação seguiu muito forte. Quando encontrei a Flor, disse a ela que minha paternidade estava realizada, que havia feito inclusive vasectomia… Ela, de sua parte, que não tinha tido filhos, disse que não estava nos seus planos a maternidade.

Com a estabilização de nossa relação, e depois de um trabalho terapêutico, a Flor falou da possibilidade da adoção. No início, falei brincando que eu me preparava mais para ser avô e não pai…

Mas logo concordei que era um direito dela experimentar a maternidade e pensei que Deus tem sido tão misericordioso conosco e comigo em particular que jamais poderia me negar a um gesto de tentar fazer feliz um “serzinho” humano…

Assim, em abril de 2007 demos início ao processo na Vara da Infância e da Juventude de Brasília. No perfil desejado, colocamos que gostaríamos de adotar preferencialmente uma menina de 0 a 3 anos.
Depois do processo de entrevista, participação em palestras, visitas à nossa casa, recebemos em outubro daquele ano a sentença do juiz, que nos habilitava para a adoção e nos inscrevia no cadastro de pretendentes qualificados. A partir daí, a longa espera…

Durante este processo, várias oportunidades se ofereceram para a gente “furar a fila”. Mas tínhamos compreensão de que não poderíamos ir por esse caminho. Nas poucas vezes que decidimos examinar estas possibilidades sempre vimos que era complicado e que o melhor era aguardar.

Muita gente telefonava, informava que em tal lugar era mais fácil; que em tal cidade havia um casalzinho de irmãos disponíveis para adoção; em outra cidade, outra criança. Mas nunca as coisas se concretizavam efetivamente, até porque não aceitávamos ir por caminhos paralelos. E tudo isso provocava sempre um desgaste emocional pesado.

Ocorre que o processo de adoção é muito burocratizado no nosso país. Felizmente, o Presidente Lula sanciona na próxima segunda-feira, dia 3, a nova lei da adoção que simplifica muito esse processo.
Há um agravante: como as Varas da Infância têm em geral poucos funcionários, elas não conseguem montar uma “rede de captação” de crianças disponíveis. Então, em cada hospital ou clínica se cria uma rede informal, que entrega diretamente as crianças a pessoas interessadas, que, em seguida, legalizam a adoção. Por esta razão, a fila do cadastro anda muito devagar.

Além disso, o processo de retirada do pátrio poder dos pais biológicos é muito lento. E aí ocorre um fato perverso: a criança permanece, à espera do fim deste processo, durante muito tempo nos abrigos e orfanatos. Quanto mais ela cresce, mais diminui a chance de vir a ser adotada, uma vez que a imensa maioria dos casais que querem adotar desejam crianças pequenas, como era o nosso caso.

Foi conhecendo essa realidade e ajudando no processo de discussão da nova lei, que resolvemos ampliar o perfil de idade da criança que esperávamos e também a aceitar, se fosse o caso, uma dupla de irmãos.

Subjetivamente, a gente foi nesse tempo todo se preparando _ uma preparação espiritual, rezando e pedindo desde então pelo nosso futuro filho. Compusemos uma oração que rezamos muitas noites juntos e, ao mesmo tempo, preparando um quarto da casa com berço, decoração infantil, etc. O berço tivemos que doar agora porque as meninas que recebemos não cabem mais neste berço…

Mas, como a vida sempre reserva surpresas, minha filha que estava em Madri conheceu uma menina, a Fernanda, cujo irmão era juiz da infância em Santa Catarina, o Dr. Alexandre Rosa, uma ótima figura.
Falando com ele, conheci o Dr. Francisco de Oliveira, também de Santa Catarina, que é o responsável nacional pela área de adoção na AMB (Associação dos Magistrados do Brasil). Eles me puseram a par de todas as dificuldades que enfrentavam para a aprovação da nova lei e eu me interessei por ajudar.

Conseguimos agora esta vitória da aprovação da nova Lei de Adoção. Nas nossas conversas, um belo dia o Dr. Francisco nos fala de duas irmãs, de 4 e 6 anos, em Santa Catarina, cujo processo de liberação para adoção estava adiantado e nos pergunta se tínhamos interesse.
A primeira hipótese que ele havia nos apresentado era de uma família de cinco irmãos. Aí era demais para as nossas possibilidades… A gente manifestou interesse pelas irmãs e ele nos descreveu o histórico familiar.

Como em quase todos os casos, a história é muito triste: pai preso por tráfico, mãe que se prostituira. No dia 21 de julho, finalmente, ele nos avisa que as meninas estavam disponíveis. Largamos tudo e, já no dia 24, viajamos a Santa Catarina para conhecer as meninas.

O primeiro contato, ainda no abrigo, foi muito impactante. Elas nos encantaram à primeira vista… Mas ainda não podíamos dizer nada a elas. Tivemos uma reunião com a juíza, uma mulher extraordinária, corajosa, que toda semana almoça em um dos abrigos da comarca, mobiliza a comunidade e consegue dar um padrão admirável a esses abrigos.

Ela nos contou histórias incríveis e, ao mesmo tempo, histórias tristíssimas. Mas nos confortou e deu grande segurança para a gente ir em frente. Visitamos de novo as meninas no sábado. Elas já haviam desconfiado de tudo e começaram, mesmo no meio das outras crianças do abrigo, a nos chamar de pai e mãe…

É como você estender uma corda a alguém que está se afogando, Kotscho… Elas se agarram com toda força… Aliás, o que corta o coração é conversar com as outras crianças, que te pedem para que você as leve também, ou arranje uma família para elas… Dá vontade de carregar todas…

Na segunda-feira, às dez da manhã, fizemos a audiência formal e jamais vamos nos esquecer do momento em que, no final da audiência, nos trouxeram as duas, cada uma com uma mochilinha nas costas. Vieram direto para o nosso colo… A mais nova chorando, assustada com os cabelos ouriçados de uma das assessoras da juiza, achava que ela era uma bruxa….
De lá para cá, foi uma movimentação doida, carro, avião, a chegada em casa. O pessoal do gabinete havia preparado a nossa casa com cartazes de boas vindas e dois sacos de brinquedos e quinquilharias para as duas.

A excitação total pelo novo, a alegria indizível de duas meninas que te abraçam, te chamam de pai e mãe, bagunçam completamente a casa e “feito posseiras”, tomam conta de seu coração…
Elas estão ótimas, muito carinhosas, com as birras próprias de criança, exercitando os limites, testando a gente… Sabemos que temos pela frente um grande e difícil caminho de reconstrução desses coraçõezinhos machucados.

Mas já posso dizer que elas estão nos fazendo um bem danado, talvez maior do que o bem que possamos lhes fazer….

É isso.

Kotscho, como te falei, é importante preservar a identidade das duas e a cidade de origem delas. O resto, fique à vontade.

Um forte abraço e obrigado por essa oportunidade,

Gil

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143 comentários para “Exclusivo/ Dois anos de batalha para adotar duas filhas”

  1. Moacir Goulart disse:

    Parabéns ao Sr. Gilberto, para a sua esposa e, principalmente, para as crianças. Belo exemplo de ser humano.

  2. Aliz disse:

    Oi Kotscho!
    Não há mesmo como não se emocionar com esse relato e tão nobre iniciativa. Desejo felicidade à família!

    Kotscho, depois do que lemos ontem aqui, em mais um exemplo de ignorância e monstruosidade, acho que o apelo do Bento Bravo é bastante plausível.

    Por favor gente, tenhamos um mínimo de decência e bom senso na hora de opinar, enxerguemos o fato em si, os seres humanos por trás da história e não posições políticas, cargos e demais detalhes mínimos que levam à rivalidade e a pequenez. Certas coisas nos dão vergonha, como os posicionantos dos ‘Mister Me’ da vida.

    A adoção é um assunto polêmico, não só pela solidariedade intrínseca, mas principalmente pela coragem que exige desses casais ao se aventurar entre personalidades desconhecidas. Há muita coisa interessante a ser analisada aqui, então, tentemos ser um pouco mais sábios. Esse excesso de pseudo intelectualidade e de atraso mental de alguns cansa e desaponta pra caramba.

    Bom dia todos!

  3. ana paula disse:

    Coisa deliciosa de ler!! Obrigada!!

  4. Rafael Lotaif disse:

    Meus caros
    Dois anos não é muito para se ter duas crianças pensem no tempo de gestação seriam nove meses para cada uma e com um pequeno intervalo chegariamos aos dois anos.
    Passamos pelos mesmos problemas eu e Bia mas quando conhecemos as duas irmãs no abrigo foi amor à primeira vista
    e hoje após tres anos ficamos com a certeza de elas nos fazem muito mais do que nós a elas.
    Adoção é maravilhoso e recomendo a todos mesmo os como Gil que já tem filhos grandes e como a Flor que ainda não tinha filhos.
    Adoção é amor

  5. paulo roberto cequinel disse:

    Ricardo:

    Não sei se é adequado, mas você poderia fornecer-me o e-mail do Gil Carvalho? Creio que ele permitirá, ao ver meu nome.
    Paulo Roberto Cequinel
    RG 847.060-0/PR
    Rua João Leão, 324
    ANTONINA – PARANÁ

  6. Gilberto Pucca Jr disse:

    Esse texto sintetiza quem é o Gil Carvalho. É uma daquelas figuras impares que fazem a gente não perder a esperança na humanidade. Kotscho, muito legal você ter pautado esse assunto por essa ótica, alías como você tem feito no blog. E alem disso, mais um exemplo de como o poder publico, atraves do Executivo Federal, pode sair da burocracia fria e impessoal dos papéis e tramites burocráticos e servir aos cidadãos. Para isso servem os governos. Obrigado Presidente Lula e a todos os envolvidos nessa nesse processo, pela aprovação da reformulação da Lei de Adoção.

  7. Ana Lucia disse:

    Gilberto e Flor, vcs são maravilhosos, parabens a vc dois e que Deus ilumine o caminho de vcs, tudo de bom a nova familia

    Um abraço a todos

  8. claudia everaldo disse:

    Como o Enio, estou chorando até agora.
    Como fazer para que os nossos brasileiros sejam solidários e
    se preocupem mais em ser do que ter.
    Iniciando pelos nossos pequenos, para o amanhã, não pertencer
    só aos corruptos e sim aos justos.
    ‘Sou grata pelo gesto do casal Gil e Flor, que a cada dia florescem
    os coraçoeszinhos destas duas princezinhas.
    Um abraço

    Claudia Everaldo
    Piracicaba SP
    c

  9. Marli Lisboa disse:

    Parabenizo o gesto de amor incondicional, mas preciso manifestar que é muito árduo o processo de adoção, dolorido e desgastante… Sou de Sc, Floripa, e uma pessoa da família já está habilitada há 4 anos, tenta apresentar outras possibilidades, mas os entraves , parece-me, “pessoais” e “profissionais” são mais do que burocráticos … , levando até a possível desistência, como temos cruzados com outras pessoas que já desistiram dessa iniciativa …Felicidades.

  10. disse:

    Claro que estou chorando, só de imaginar as duas de mochila nas costas caminhando para uma nova vida. Imagino o que ira significar para estas meninas e tambem para voces esta nova vida. Este novo começo.
    Parabens, pela luta, pela garra…. Parabens a Flor por entender que a maternidade é algo muito alem de ter um filho saindo da barriga. Começará um novo ciclo na sua vida, aproveite muito. Voce irá adorar.

  11. Célia disse:

    Parabéns a estas pessoas maravilhosas que fazem o bem sem olhar a quem.
    Que Deus ilumine a todos que adotam uma criança

  12. Cocondo plenamente.... disse:

    Concordo plenamente, é um gesto muito bonito para que façam este tipo de comentário.
    Infelizmente , deveriam agilizar esses processos…
    Queria parabenizar o Sr.Gilberto…

  13. Cristina Assis disse:

    Emocionante!

    Impossível não chegar ao final do texto com olhos marejados!

    Parabéns Gil e Flor, não é fácil adotar crianças com personalidade já formada! Mas com carinho e paciência tudo dá certo!

    Desejo boa sorte, do fundo do meu coração!!!

    Obrigada, Kotscho!!!

    Cristina

  14. Linda disse:

    Ricardo legal vc dar espaço pra esta historia de vida.
    Diariamente lido com estas emoçoes. Trabalho com associações italianas de voluntariado que orientam os casais italianos que querem adotar aqui no Brasil, Eles preparam e me enviam os documentos que eu traduzo e acabo me emocionando com historias, tao comoventes quanto esta. Desde a destituição do patrio poder, quando são relatados os maus tratos sofridos pelas crianças, passando pela frustração de casais que não conseguem ter filhos naturais, até chegar a conscientização de que um unico gesto pode mudar e enriquecer os dois lados, criando melhores possibilidades de vida a menores que mais tarde se tornarão seres humanos realizados e agradecidos.

  15. Eliane Soares disse:

    Bom dia, Ricardo.

    Ao acessar a home page do ig, deparei-me com o link referente à adoção e interessei-me. Ainda não tinha chegado à metade do relato do sr. Gilberto, e a emoção turvava-me os olhos de felicidade, ao ver que existem pessoas maravilhosas que se preocupam em proporcionar um lar, carinho e amor a crianças tão desamparadas pela vida. Não tenho palavras para expressar o que sinto, sem tornar-me repetitiva, por isso faço minhas as palavras dos srs. Enio Barroso Filho e de Bento Bravo.
    Parabéns ao sr. Gilberto Carvalho e sua esposa, que nosso Pai Celestial os protejam e iluminem sempre, por esse maravilhoso gesto de amor e fraternidade.
    E pra ti, obrigada por nos proporcionar gratificantes momentos de leitura. Que os anjos te abençõem.
    Eliane

  16. Valentina disse:

    Parabéns pela linda história de amor! Eu também sou mãe de três filhos sendo que o meu caçula é adotado e sei o quanto estão felizes o Gil e a Flor depois de passar por esse processo tão demorado que é o da adoção. Parabéns Gil e Flor o mundo precisa muito de pessoas como voces que se dedicam a uma causa tão nobre, se cada casal pudesse e quizesse adotar, os orfanatos estariam vazios e os corações dos pequeninos,com certeza mais felizes. Bjos.

  17. Ivan Quadros disse:

    Bravo, Ricardo: adorável compartilhar o lado humano dos governantes e no seu blog encontramos essa oportunidade prazeirosa.
    Concordo com o Gilberto lá onde ele diz que que melhor que fez na vida foi ter filhos.
    Como você sabe, tenho três.
    Meu abraço, vivas ao Gil e a Flor, Ivan Quadros

  18. FAMÍLIA ALBUQUERQUE disse:

    confesso que chorei, com este relato, é emocionante encontrar em nossos dias tão conturbados, pessoas que tem está coragem, e este grande amor pelo ser humano, se muitos que podem tivessem um coração tão grandioso, como o deste casal, que atravessou vários estados, para fazer felis estas duas crianças, o mundo com certeza estaria melhor, está repostagem merecia, estar na primeira página dos jornais, para encorajar, muitos outros casais, que podem e não tem a mesma coragem.

    Um grande abraço à todos, parabéns e sejam muito felizes

    Família Albuquerque, torce por todos.

  19. Carlos Lacerda disse:

    Senhoras e Senhores,

    Li sobre o assunto, parabéns ao o casal por terem sido abençoado pela adoção, pois já estou á sete meses esperando concluír a primeira fase do processo de adoção. Lá em casa, temos fé de que seremos abençoado em breve.

  20. Denise disse:

    Caro Kotscho!

    Tenho acompanhado o teu blog e hoje não resisti e vou deixar um comentário te agradecendo pela matéria, procurei uma palavra que eu pudesse escrever antes da palavra matéria mas não encontrei. É muito bom poder abrir as notícias do dia e ler algo tão maravilhoso como esse. Que bom seria se tivéssemos mais notícias assim! O sr Gilberto Carvalho não precisa se preocupar porque as feridas do coração destas crianças logo cicatrizarão e não restarão marcas, tenho certeza. Uma criança em situação crítica nos primeiros anos de vida sofre e tem consequencias graves por isso, mas é comprovado que o amor de um pai e uma mãe que as acolham e as dediquem os cuidados e afeto necessários conseguem facilmente reverter e “previnir” qualquer tipo de consequencia ruim. Não me resta dúvidas de que essas meninas estão em boas mãos e este ato glorioso merece destaque na mídia e que convoque corações a se unir nesta luta contra abandono, maus tratos e violência infantil.

    Forte abraço e muito obrigada por esta leitura que encheu o meu dia de alegria e esperança!

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